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Título   13 dias de cárcere Gênero Drama
 
     
     
     
     
     
 

 

Título original: 13 dias de cárcere

Romance / Drama

edição

 

Copyright© 2016 por Paulo Fuentes®

Todos os direitos reservados

 

Este livro é uma obra de ficção e os personagens e os diálogos foram criados a partir da imaginação do autor.

 

Qualquer semelhança com acontecimentos ou pessoas vivas ou mortas, fatos e atos poderão não ser mera coincidência.

 

Autor: Paulo Fuentes

Preparo de originais: Paulo Fuentes

Revisão: João Alberto de Oliveira

Projeto gráfico e diagramação:

Capa: Paulo Fuentes

Todos os direitos reservados no Brasil:

Paulo Fuentes e El Baron Editoração Gráfica Ltda.

 

    987-74-63734-01-2

 

 Apoio Cultural:

 

   

 

  Ao adquirir este livro você estará ajudando às 552 crianças que fazem parte da Fundação Fuentes Teixeira... Clique no logo abaixo e conheça um pouco mais da entidade.

 
     
     
 

“Muitas vezes ao desejarmos consertar um erro, acabamos cometendo erros piores dos que já havíamos cometido anteriormente”.

 
     
     
   
     
     
 

Campinas, SP, 17 de Março de 2.000.

 

 

Havia perdido a carteira de identidade já fazia algum tempo e por absoluta falta de tempo fui deixando o tempo passar até que certo dia, arrumando um tempo fui até o Poupa Tempo da capital paulista a fim de ver se conseguia tirá-lo com maior brevidade.

 

Ledo engano, pois ali me dei conta que além de não poupar o tempo, ainda percebi que era pura falta de profissionalismo dos funcionários do Estado que prestavam determinado tipo de serviço.

 

Eu sabia que eu era eu. Possuía a cópia da carteira de identidade perdida reconhecida a sua originalidade por um juiz de direito legalmente empossado em seu cargo. Possuía também a carteira de reservista e o título de eleitor, porém, o eficiente funcionário público me pediu a certidão de nascimento ou a certidão de casamento.

 

- Moço! Se eu tivesse estes documentos em mãos eu teria trazido, mas a apresentação da cópia da identidade antiga, o título de eleitor e a carteira de reservista não bastam? Perguntei tentando manter a calma.

 

- Não! Respondeu secamente o funcionário.

- Mas concorda que a foto na carteira de reservista é a minha?

- Não! Na foto você estava com dezoito anos.

- Mas não vê que os traços são meus?

- Não!

- Moço! Você percebeu que a cópia da identidade perdida foi autenticada e assinada por um juiz de direito?

- Você trouxe o juiz junto? Se trouxer ele aqui eu dou entrada nos protocolos.

 

Eu já ia mandar o funcionário às favas, mas não sei como e nem por que me segurei e acabei indo embora reclamando daquele sistema corrompido que só queria fazer as pessoas perderem tempo.

 

- Porque está bravo? Perguntou-me um desconhecido diante do posto.

- Pela incompetência do governo que exige demais.

- O que houve?

 

Eu já ia mandar aquele rapaz andar, mas me contendo contei o ocorrido e ele para minha surpresa me falou que seu eu quisesse uma identidade ele tiraria em duas horas e viria assinada pelo mesmo delegado que assinava dentro do posto.

 

- Como assim?

- Como acha que o sistema gira?

- Sei lá, mas não me interessa, obrigado.

- Se mudar de idéia estou sempre por aqui.

 

Não ia mudar de idéia, mas fui embora xingando aquele sistema sujo e corrupto, pois se era o mesmo delegado que assinava pelas vias oficiais e pela via alternativa algo estava errado.

 

Eu ainda era inocente e não acreditava que aquilo ocorresse assim tão descaradamente. Caminhei em direção à estação do metrô e quanto mais eu andava mais eu reclamava, pois eu era uma pessoa que não tinha tempo para quase nada e com muito custo naquele dia dei um jeito de arrumar um tempinho para ir até aquele tal de Poupa Tempo e o que mais perdi foi justamente tempo.

 

Para que eu levasse a certidão de casamento ou teria que ir atrás da ex, ou teria que ir para o interior buscar. A certidão de nascimento era quase a mesma situação e de qualquer forma estava a minha total falta de tempo e por falta de tempo fui deixando para lá e o tempo foi passando.

 

Alguns meses depois, fui realizar serviço de consultoria na região da cidade de Campinas e tive a oportunidade de ir até o Poupa Tempo de lá e a por incrível que pudesse imaginar, lá, o funcionário aceitou a cópia da minha carteira de identidade e pediu que eu fosse retirar a nova dentro de três dias.

 

Sai dali feliz da vida. Finalmente depois de vários meses eu iria pegar novamente meu documento oficial e original. Fui embora e aqueles dois dias o trabalho rendeu mais que geralmente rendia pela minha satisfação e alegria, mas mal poderia imaginar que uma fatalidade iria me derrubar de cara no chão.

 

Três dias depois lá estava eu para retirar meu documento. Eu havia terminado o serviço e após pegar a carteira eu voltaria para casa na capital. Eram dezesseis e vinte quando fui até o balcão de retirada.

 

Identifiquei-me e entreguei o protocolo para o funcionário. Este pediu para que eu aguardasse um pouco e foi lá para dentro. Fiquei ali esperando e percebi que ele voltou acompanhado de outra pessoa e voltaram ambos para dentro. Pouco tempo depois outra pessoa apareceu na porta, olhou para mim e voltou para dentro. Estranhei aquilo, mas permaneci por ali. Havia algo de errado, mas como não devia nada fiquei esperando.

 

Passou-se em torno de quinze minutos duas pessoas se aproximaram de mim e pediram para que eu os acompanhasse. Estranhei e sem me dar conta de nada acompanhei os dois e entramos em uma pequena sala.

 

- O barraco caiu malandro. Você está preso.

- Como?

- Você está preso.

- Eu preso! Por quê? Perguntei assustado.

- Ainda tem a cara de pau de perguntar mano? Falsidade ideológica.

- Não estou entendendo. O que foi que eu fiz?

- Você é doido ou está querendo dar uma de besta?

- Não sei do que está falando.

- Mete a pulseira nele e leve-o para o DP. Que cara mais filho da puta. Vem fazer documento falso e ainda quer tirar uma da minha cara. Disse a pessoa bem mal educada.

- Espera ai moço. Eu não sei do que está falando.

- Leve este filho da puta embora daqui antes que eu encha a cara dele de porrada.

- Está cometendo um engano.

- Deixa de ser filho da puta. Leve logo este marginal daqui.

 

Eu ainda tentei argumentar algo, mas não teve jeito. Dois truculentos policiais civis me agarraram, colocaram algemas bem apertadas e me levando para fora me jogaram atrás de uma viatura e levaram-me para o primeiro Distrito Policial e mal sabia eu que meu drama estava apenas começando.

 

Os dois policiais fizeram questão de judiar o máximo que puderam de mim e demoraram em levar-me até o Distrito e pareceu-me que deram uma volta por toda a cidade somente com a finalidade de me fazerem sofrer.

 

Quando colocaram aquelas algemas, fizeram questão de colocar meus braços para trás e apertaram de tal forma que chegou a cortar e esfolar os mesmos e eles passavam, para judiar, nas lombadas com tudo e faziam curvas demasiadas fechadas apenas para me ver sofrer.

 

- Está doendo os braços ai malandro? Perguntou-me um deles.

 

Preferi nada dizer, mesmo porque a dor causada por aquelas argolas estavam me arrancando lágrimas dos olhos. Permaneci calado e de repente pararam diante do distrito policial. Eles desceram, abriram a porta traseira e rindo da minha cara ainda tiveram o desplante de dizer...

 

- Foi mal, mas era isso ou o Agnaldo iria querer te pegar lá dentro do cadeião.

- Cadeião? O que é isso?

 

- Uma cadeia grande. Bem grande. Respondeu o outro rindo.

- Mas não fiz nada para estar preso.

- Não! Você não fez nada, fui eu quem fez. Respondeu rindo.

 

Levaram-me para dentro do distrito e me algemaram a uma barra na parede e me fizeram sentar em um bando de concreto e ali permaneci por um tempo indeterminado até que uma pessoa veio até mim e levou-me para a sala dele. Era o delegado do distrito.

 

- Que merda! Eu tinha um aniversário para ir  hoje e o delegado que viria me render aqui está atrasado e para agravar o porra do escrivão da noite ainda não chegou e não sei preencher os BO´s.

- Doutor! Eu não fiz nada. Estão me acusando sem eu ter culpa.

- Bem! Se tiver culpa ou não, aqui diz que foi pego em flagrante querendo tirar documento falso dentro de uma unidade do Estado.

- Mesmo que eu fosse um imbecil, coisa que não sou doutor, se fosse fazer isso iria comprar uma sem risco lá na capital. Respondi me lembrando do rapaz de outro dia.

- Realmente você não tem cara e nem jeito de quem é marginal. O que você faz da vida?

- Eu trabalho com consultoria e o senhor poderá comprovar isso se ligar para três empresas que eu prestei serviço para elas até hoje à tarde.

- Infelizmente isso não compete a mim moço. Você foi preso em flagrante e caberá a um juiz decidir de é culpado ou não. Por hora tenho que fazer o BO e como já passou das dezoito horas, serei obrigado a lhe enviar para o cadeião da cidade.

- Cadeião doutor?

- É! Lá é uma velha penitenciária feminina que foi desativada e agora serve de cadeia de apoio antes que os presos sejam levados para a penitenciária.

- Penitenciária?

- Exatamente isso. Você sabia que o antigo complexo do Carandiru foi transferido aqui para a cidade vizinha de Hortolândia?

- Sabia sim. Tenho amizade com o Geraldo.

- Que Geraldo?

- O vice-governador do Estado.

- Pode parar. Agora vai dizer que é amigo do vice-governador?

- Acredite ou não sou sim.

- Tudo bem. Está com fome?

- Como doutor?

- Vou pedir uma pizza e este filho da puta do escrivão e do meu substituto que não chegam.

- Posso lhe pedir um favor doutor?

- O que é? Não é para lhe deixar ir embora, é?

- Gostaria disso, mas não é isso não. Eu vim de carro para cá e queria ligar para São Paulo para que meu cunhado venha buscá-lo.

- Pode sim. Espere. Deixe-me tirar estas algemas de você, por que sei que não irá fugir e daí pode ligar.

- Posso ligar de meu celular?

- Não tiraram isso de você?

- Tiraram um só. O outro estava no bolso e não pediram e eu também não entreguei.

- Gostei de você. Pode usar o seu telefone sim.

 

Apesar da situação sorri e pegando meu celular liguei para meu cunhado e por cima lhe expliquei o que estava acontecendo e pedi se ele poderia vir buscar meu carro que estava em um estacionamento que ficava aberto até as vinte e uma horas.

 

- Será que dará tempo de eu chegar ai? Perguntou-me meu cunhado.

- Faça dar tempo. Senão eles vão sumir com meu carro.

- Estou saindo daqui agora.

- Onde está o seu carro? Perguntou-me o delegado.

- No estacionamento ao lado do Poupa Tempo.

- Qual deles?

- Este aqui. E mostrei-lhe o papel que me deram por lá.

- É de meu primo este estacionamento. Quer que eu peça para que ele traga ele aqui?

- Pode fazer isso?

- Se me autorizar sim. Como eu disse gostei de você e não vou querer arrumar inimizade com um amigo do futuro governador do Estado, porque ele deva sair candidato e deverá ganhar. A propósito meu nome é Roberto.

- Falta muito tempo para as próximas eleições ainda.

- Vá lá saber, mas não quero arrumar inimizade com um amigo do vice-governador, pois vá que seja verdade sua e eu acredito que seja, posso me dar mal depois. E ai, mando trazer seu carro para cá?

- Pode mandar sim doutor. A chave ficou lá com eles.

- Tudo bem! A pizza também já está chegando e nada do escrivão e o meu substituto chegarem e não sei preencher BO´s. Que merda.

 

A pizza chegou. O meu carro chegou e nada do meu cunhado e do escrivão e o outro delegado chegarem. Comemos a pizza e o delegado emburrado por causa do BO que ele não sabia preencher.

 

- Quer que eu preencha o BO para o senhor?

- E você sabe preencher isso?

- Oras! Deve ser só colocar os dados não é?

- Isso mesmo, mas o que me barra é configurar a impressora.

- Fácil isso. Quer que eu faça?

- Você quer preencher um BO contra você mesmo?

- Eu não estou preso?

- Sim! Está, mas daí a você preencher o seu próprio BO já é demais.

- Quer que eu preencha? Eu coloco meus dados, ajusto a impressora e o senhor me dita sobre a minha acusação.

- Cara! Se não tivesse o flagrante eu iria te deixar ir embora livre.

- Sei que não pode me liberar por que tem suas responsabilidades, portanto o que é que eu posso fazer?

- Bem! Vamos lá. Você ajusta tudo e eu dito para você do que te acusam.

 

Com o delegado ao meu lado ajustei a impressora e preenchi o documento e cometi um erro terrível. Onde mencionava grau de instrução coloquei ¨superior completo¨. Aquilo em prisões era quase o mesmo que ser um pedófilo, pois os presos odiavam os que chamavam de engravatados.

 

Pizza comida, BO preenchido, carro entregue, meu cunhado chegou com minha irmã chorando e nada do delegado substituto e o escrivão chegarem.

 

- O que você aprontou? Perguntou minha irmã chorando.

- Pior que não fiz nada.

- Se não fez nada, porque te prenderam?

- Pior que também não sei.

- Doutor! Não dá para relaxar a prisão dele? Pagamento de fiança, quem sabe. Perguntou meu cunhado.

- Infelizmente não dá mais, mas porque não fala com um advogado daqui e veja com ele o que se pode fazer?

- O senhor conhece algum bom?

- O caso de é simples. Ele é primário e isso dá para se responder em liberdade e ademais tem um cata pulga ai fora que pode ajudar.

- Cata pulga? Perguntei.

- É! Daqueles que ficam nas portas das cadeias esperando chegar algum preso.

- Ah ta! Entendi e tem algum por ai?

- Espere que vou olhar.

 

Saiu e voltou pouco depois trazendo uma pessoa com ele. Era um advogado da cidade.

 

- Este é o doutor Flávio. Ele é um advogado criminalista aqui da cidade e podem conversar com ele. Disse o delegado.

 

Começamos a conversar com aquele advogado, porém ele não me mostrou segurança. Parecia ser fraco demais, porém, a minha situação não era coisa para ficar muito tempo preso. Eu era primário e a acusação era pífia. Não havia o porquê me manter preso por mais que um final de semana e como o próprio delegado dissera, até um estudante de primeiro ano na faculdade resolveria meu problema.

 

Combinamos tudo com o advogado e ele ma garantiu que no máximo terça, ou na pior das hipóteses na quarta feira seguinte eu estaria na rua, ou seja, na pior de todas as hipóteses eu permaneceria preso por no máximo cinco dias.

 

Nem bem tínhamos acabado de falar com o advogado e tanto o escrivão quanto o delegado que iria substituir o doutor Roberto. Este se despediu de mim, entregou meus pertences e a chave do meu carro para meu cunhado, verificou se estava tudo em ordem comigo e foi-se embora.

 

Meu cunhado, o irmão dele que o acompanhara e minha irmã voltaram para São Paulo, o doutor Roberto, mesmo atrasado foi para a festa de aniversário e eu depois de vinte minutos fui conduzido para o cadeião da cidade, mas desta vez o delegado havia ordenado que quem fosse me levar para lá me algemasse com as mãos para a frente e não apertassem demais.

 

Desta vez, mesmo estando preso e indo para uma cadeia pública a qual eu mal sabia o que haveria de encontrar por lá, o caminho foi curto e as algemas não prenderam tanto quanto da primeira vez. Chegamos, os dois policiais abriram a porta traseira da viatura e levaram-me para dentro daquelas instalações que já fora no passado uma penitenciária feminina.

 

A construção de fato era muito antiga. Parecia que as paredes daquele prédio poderia se desmanchar de um momento para o outro. Entramos e fui conduzido a um pequeno cubículo. Ali fui deixado e um carcereiro veio falar comigo.

 

- Já foi preso alguma vez?

- Não senhor! Nunca.

- Aqui em sua ficha diz que tem nível superior. Quer ficar nos seguro?

- O que seria ficar no seguro?

- Bem! Você ficaria separado da população da cadeia e sema acesso ao sol e ficará lá mofando até ir para a penitenciária.

- Até quarta feira estarei na rua senhor.

- Ah ta! Só porque você quer.

- Meu advogado garantiu isso.

- Qual é o nome dele?

- Doutor Flávio.

- Flávio Santos?

- Este mesmo.

- Não quero ser agourento, mas este advogado porta de cadeia não vai lhe tirar daqui, se tirar antes de um mês.

- Como senhor?

- Ele adora fazer drama. É folgado. Não corre atrás das coisas e só vai atrás quando começam a ficar no seu pé, porque se não ficarem ele nem vai atrás de nada.

- Está brincando não é?

- Não! Você já pagou para ele?

- Combinamos de metade amanhã e a outra metade quando eu sair.

- Ele vai te dar canseira, mas vamos lá. Você tem alguma tatuagem?

- Não senhor.

- Tem alguma cicatriz?

- Também não senhor. Quer que eu tire a roupa para o senhor olhar?

- Não! Estou cansado de ver homens pelados aqui. Não quer mesmo ir para o seguro?

- Não senhor.

- Lá só tem um preso e raramente enche. Já com a população a casa nos finais de semana fica lotada e ai só pela hora da morte e pelo que vi você tem nível superior e os presos não gostam de burgueses.

- Ainda assim prefiro ficar junto com os demais presos, mas porque este outro preso está no seguro?

- É um pedófilo que foi preso após ter estuprado cinco crianças.

- Por favor! Coloque-me logo junto com os outros presos, porque senão eu mesmo dou uma surra neste canalha.

- Tudo bem! Se prefere assim, vou te colocar lá junto com eles.

 

As portas de grade foram abertas uma e depois outra e acabei passando pela cela que era considerada do seguro. Lá dentro, no fundo da cela estava uma pessoa que não consegui distinguir bem quem ou como era, pois estava bem no fundo da cela escura, mas só de imaginar alguém fazendo mal para crianças me deu vontade de esganá-lo.

 

Portas se abriram e fecharam atrás de mim e de repente eu estava em um amplo pátio com celas dos dois lados. Aquilo ali fedia a sujeira. As paredes pelo que pude constatar estavam mesmo parecendo que iriam desmoronar. Fui conduzido a uma das celas que contava com oito presos dentro dela. As demais estavam todas vazias.

 

O carcereiro abriu a porta e disse para os demais presos que parecia que aquela noite a cadeia iria encher. Disse isso sorrindo, mandou que eu entrasse e depois de trancar a porta de grades saiu para ir embora.

 

Entrei. Estava assustado, pois nunca em minha vida poderia me imaginar sendo trancado dentro de uma prisão e ainda mais rodeado de bandidos, mas tinha que conter meu medo. Não podia fraquejar.

 

- Entre e arrume um canto para dormir. Disse um dos presos.

- Você foi preso por qual artigo? Perguntou outro.

- Aqui você está entre amigos. Fique tranqüilo. Disse outro.

 

Cumprimentei a todos e querendo parecer corajoso em uma situação daquelas disse que tinha sido preso por documentos falsos.

 

- Um estelionatário. Raridade nesta cadeia. Entrou no artigo 171 é?

 

Nem tinha idéia de que era isso, mas fazendo de conta que entendia concordei. Indicaram-me um canto para eu me ajeitar. A cela estava forrada de espumas velhas que eram usadas de colchão. Alguns presos devem ter arrumado lençóis e haviam forrado aquilo tudo. Uma degradação total da sociedade humana, mas me ajeitei no canto e ali fiquei sendo bombardeado por perguntas.

 

Apesar do pânico e do medo de morrer tentei manter a calma e fui Levando a conversa em torno do nada com coisa alguma. Notei que um daqueles presos não tirava os olhos de mim e isso estava me incomodando. Era ainda um garoto. Não deveria ter mais do que vinte anos de idade, mas já estava no crime.

 

- Sou Tisiu e já deve ter ouvido falar de mim. Sou conhecido como o vampiro de Campinas.

- Tudo bem, mas não ouvi não. Sou da capital e me desculpe por não ter visto isso por lá.

- Tá me tirando! Sou famoso e adoro beber o sangue das minhas vítimas.

 

Eu estava apavorado. Ele era um garoto, mas sua forma de falar me deixou com uma sensação horrorosa e sempre tive orgulho de ser considerado um homem macho, mas isso no meu mundo e não naquele mundo para mim desconhecido.

 

- Eu costumo matar minhas vítimas enfiando uma faca no coração delas. Giro do lado contrário e depois que as mato, pego um copo, coloco o sangue ainda quente delas no copo e bebo para comemorar. Continuou falando aquele jovem.

 

Meu corpo se arrepiou todo. A forma de falar e o sangue frio com que dizia aquelas palavras, me fez arrepender-me de não ter ficado no seguro. Seria melhor encarar aquele pedófilo, com risco de eu esganá-lo, do que ficar diante daquele marginalzinho, mas agora era tarde para voltar atrás. Preferi me encostar ao canto da parede fria e fingir que dormia.

 

Não soube precisar que horas seriam, mas ouvi um dos presos, outro garoto pedir para o guarda comprar pizza para eles. Achei que estava sonhando, mas mantendo os olhos fechados prestei atenção na conversa.

 

- Manda trazer duas pizzas de calabresa para nós seu guarda.

- Duas não! Vou pedir quatro e você para pelas quatro. Respondeu o guarda.

- Tudo bem! Manda vir também oito latas de cerveja.

 

- Oito não! Vou pedir vinte e você paga por elas?

- Pode mandar vir que tenho dinheiro aqui comigo.

- Olha lá! Se trouxerem e não pagar o pau vai comer.

- Pode pedir que eu pago.

- Então espera que já vou pedir.

 

Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Os presos pediam coisas da rua e o guarda cobrava esquema para mandar trazer e não demorou nada e chegaram as pizzas e as cervejas. Continuei fingindo que estava dormindo e assim permaneci depois que eles comeram e beberam dentro da cela o pedido pelas mãos do próprio guarda que estava ali para mantê-los presos e sem direito a nada.

 

Comeram, beberam e todos se deitaram para dormir. Permaneci da forma que estava. Fingia dormir e de repente pareceu-me ter ouvido a voz de duas mulheres no pátio.

 

- Impossível isso. Aqui é uma cadeia de homens e não pode ter mulher aqui dentro. Pensei.

 

Não era sonho. Havia mesmo ali no pátio duas mulheres e uma delas era mãe do garoto que pedira a pizza. Ela viera até a cadeia de madrugada a fim de trazer droga para ele. As luzes já estavam apagadas dentro da cela e entreabri um dos olhos para ver o que eu não acreditava. Ali, do lado de fora das grades da cela havia duas mulheres. Novas ainda e uma com certeza era a mãe do garoto. A outra deveria ser sua irmã.

 

- Filho! Estou tentando te manter aqui enquanto ficar preso, pois aqui posso lhe trazer dinheiro e droga. A única coisa desagradável é que tenho que trazer maconha e cocaína também para o carcereiro.

- É o preço da mordomia mãe.

- Tudo bem, mas saiba que vou tentar te manter nesta cadeia e não deixá-lo ir para o CDP, porque lá não dará para fazer o que faço aqui.

- Tenta lá com o gravata mãe. Sei que sai com ele e exija que ele me mantenha aqui.

 

Não tinha entendido bem o que era o tal de gravata, mas depois de um tempo fiquei sabendo que este era o nome que eles davam para os juízes.

 

A mãe dele concordou e ainda com a maior falta de caráter daquela mulher que lhe disse...

 

- Na hora de abrir as pernas e chupar ele, sou eu que faço e isso apenas para que você não se foda mais do que quer se foder.

- Mãe! Fala sério! Você adora trepar e não é sacrifício nenhum para você dar para ele.

 

Era o cúmulo do absurdo e eu não conseguia acreditar que aquilo pudesse ocorrer dentro das muralhas das cadeias do país. Resolvi forçar e tentar dormir e com muito custo acabei pegando no sono. Acordei com a barulheira na cela com todos acordados querendo recolher as espumas que serviam de colchão.

 

Levantei-me ainda zonzo e demorou a que eu me conformar que estava preso, mas enfim, aquilo era a minha realidade no momento. Olhei dos lados e vi que o Tisiu não estava ali dentro da cela. Olhei para fora e ele estava no pátio preparando para servirem o café da manhã.

 

- Oh novato! O Tisiu é o faxina daqui. Disse-me um dos presos.

- Tudo bem. Respondi e fiquei calado.

 

Pouco tempo depois o café foi servido e depois abriram a porta para que fossemos para o pátio tomar sol e caminhar um pouco. Sai e fui me sentar a um canto. Lá permaneci por algum tempo calado. Quieto, até que Tisiu se aproximou de mim e já veio me ameaçando.

 

- Então você é burguês né?

- Sou o que?

- Cara estudado. Nível superior. Você está no lugar errado. Nóis é do gueto e se não pedir ir pro seguro eu vou te furar até você sangrar e depois vou tomar os eu sangue.

 

Aquelas palavras proferidas em tom de ameaça me deixaram apavorado. Se fosse em uma situação normal eu pegaria aquele moleque e lhe daria uma surra, mas isso em meu mundo e eu não estava mais no meu e sim no mundo dele. Tremi e ele sentiu prazer em me ver assustado.

 

- Vou te mostrar uma coisa e será com ela que vou dar cabo da sua vida seu merda.

 

Saiu e voltou pouco depois com uma barra de ferro transformada em um tipo de faca. Abanou-a mostrando-a para mim e meu sangue gelou nas veias. Eu cometera um erro na hora de preencher o BO e com certeza o carcereiro contara para aquele marginal o meu grau de instrução. Eu não sabia o que fazer, mas no pouco de coragem que me restara aproximei-me da grade de separação com o pátio e chamei o guarda.

 

- Senhor! Será que poderia me trocar de cela para eu dormir de noite?

- Primeiro vamos encher aquela e depois vou abrir outras, mas porque quer sair daquela lá?

- Não me sinto bem lá senhor.

- Está com medo do Tisiu?

- Não é bem isso, mas gostaria de poder trocar de cela.

- Não faz diferença nenhuma você trocar de cela de noite, porque se ele quiser te pegar ele te pega de dia mesmo no pátio ou na hora de tomar banho.

- O senhor pode me trocar de cela?

- Posso, mas nas outras não tem colchão e nada mais que as burras frias de pedra.

- Não tem problema senhor. Prefiro dormir na pedra

- Tudo bem, mas você goza do privilégio do seguro. Quer ir para lá?

- O que pode acontecer lá?

- Bem! Além de estar dormindo do lado de um pedófilo assassino perigoso, se a cadeia virar lá é o primeiro lugar que os presos vão a fim de matar os que ficam no seguro.

- Prefiro me arriscar ficando em outra cela senhor.

- Tudo bem. Quando eu fechar as celas te coloco na outra.

- Obrigado senhor.

- Não me agradeça, pois se o Tisiu te jurou de morte pode começar a rezar porque ele não perdoa ninguém.

- E vocês não fazem nada para conter isso?

- Eu! Nunca iria me meter com ele.

- Tudo bem. Obrigado por me trocar de cela.

 

A manhã passou e procurei ficar a maior parte do tempo próximo da grade que separava o pátio do carcereiro e não porque isso mudaria algo, mas senti-me mais seguro ali. De longe Tisiu só me olhava, mostrava aquela adaga feita de barra de construção ria.

 

Chegou a hora do almoço e foram servidas as marmitas de alumínio e não havia colheres e nem garfos. Peguei a minha e sentei-me longe dos outros. Fiquei olhando como eles faziam para comer.

 

Vi que eles tiravam a tampa também de papel alumínio e faziam dela um tipo de colher. Procurei fazer igual e mesmo desajeitado comi aquela comida horrível e fiquei pensando no que as pessoas falavam fora das muralhas que a comida dos presos era de carne todos os dias e a comida excepcional. Na verdade a comida era um lixo.

 

A tarde chegou e Tisiu fez quentão de me ameaçar durante todo o dia. O carcereiro veio e colocou-me em uma cela sozinho. Levou os demais para a outra cela e no caminho Tisiu parou diante da grade da minha cela e disse...

 

- Reze bem esta noite porque amanhã eu vou te furar e tomar o seu sangue.

 

Era impossível não ficar assustado. Eu não pertencia aquele mundo e do nada aquele moleque me ameaçava e não duvidava que ele cumprisse o que prometera. Pelo que ouvi ali dentro, nas conversas era que ele estava sendo acusado de dezoito assassinatos e todos da mesma forma. Matava com uma faca e tomava o sangue das vítimas.

 

Trancado eu olhei para aquela cela e vi que o carcereiro falara a verdade. Ali só havia as camas de pedra, que eles chamavam de burra e nem sei por que deste nome. O tempo de repente ficou carregado e começou a chover.

 

A chuva foi engroçando e de repente virou uma tempestade. A temperatura caíra demais e do nada começou a verter água por algumas frestas na parede. O pátio começou a encher de água e alguns ratos enormes saíram pelas saídas de água do mesmo.

 

Chovia demais e não dava para ficar imune ao medo e ao pavor. As partes de cima daquelas camas de pedra estavam alagadas, devido à água que saía pelas paredes. Preferi, por falta de opção ficar na debaixo, mas aquelas ratazanas enormes resolveram fazer a minha noite ficar ainda mais aterrorizante. Aproximaram-se de onde eu estava e sentadas sobras pernas traseiras, ficaram como se estivessem em pé prontas para me atacar.

 

Entre me encharcar e enfrentar aquelas enormes ratazanas resolvi passar para a parte de cima e elas acabaram indo embora e eu fiquei ali molhado. Ensopado e não tinha onde me encostar, pois tudo estava molhado. O frio era congelante e de repente a chuva passou. Tentei adormecer, mas era impossível conseguir fazer isso. O medo, a umidade e o frio não me deixavam dormir e de repente começaram a chegar mais presos e alguns deles foram colocados na cela onde eu estava e dentre estes estava um negro forte feito um touro.

 

Ele não se conformava por estar preso. Começou a balançar as grades da cela e parecia que ele ia conseguir arrancá-las do lugar. Todos olhavam para ele e riam da cara dele e resolvi me aproximar.

 

- Calma meu amigo. Tenha calma.

- Como vou ter calma. Fui preso injustamente e tem um cara La fora que vai acabar comendo a minha mulher.

- Você ficando nervoso não vai mudar em nada a sua situação. Calma.

 

Eu não estava n um pouco calmo, mas resolvi tentar acalmá-lo a fim de quem sabe eu também pudesse me acalmar e parece que surtiu efeito, pois aos poucos aquele rapaz foi se acalmando.

 

- Obrigado! Você me ajudou para que eu me acalmasse, mas tenho que sair daqui logo porque senão o cara vai comer minha mulher.

- Calma meu amigo. Para tudo na vida tem solução. Qual é o seu nome?

- Meu nome é Cidão e o seu?

- O meu é Marcos, mas tenha calma.

- Vou tentar.

- Você já foi preso antes?

- Não! Nunca e foi tudo uma armação e você está preso por quê?

- Nem eu sei, mas me acusaram de tentar fazer documento falso.

- Poupa Tempo de Campinas?

- Sim! Por quê?

- Você não é o primeiro que eles fazem isso.

- A toa? Do nada?

- É! Eles adoram fazer isso.

- Porque te prenderam?

- Eu trabalho na construção civil. Sou ajudante de obras. Cheguei a minha casa a tarde e minha mulher estava assustada e perguntei o que tinha acontecido e com muito custo ela me contou que o Zé da venda passou uma cantada nela e convidou-a para trepar, para que ela desse pra ele.

- E o que você fez?

- Bem! O Zé me conhece desde pequeno e sabe que eu não sou de confusão, mas por eu ser negro e ter irmãos errados ele quis abusar da minha bondade.

- Você matou ele?

- Não! Eu jamais faria isso, mas fiquei fora de mim. Tomei dois goles de pinga e não posso beber porque perco a visão das coisas. Sai de meu barraco e fui até a venda dele e ele disse na minha cara que o melhor que poderia acontecer com minha mulher era se desse para ele e se afastasse de mim.

- E o que você fez?

- Eu queria arrebentar ele, mas não sei fazer isso e daí me abaixei, peguei o balcão de bebidas por baixo e virei ele de ponta cabeça.

- Você fala daqueles balcões de aço que são geladeiras?

- Deste mesmo.

- Caramba! E depois?

- Ai sai da venda dele, mas acabei pegando um litro de conhaque e estava na rua quando a guarda municipal passou e me prendeu.

- Nem sei o que te falar. Que coisa meu amigo.

- O pior de tudo é que eu era o único de meus seis irmãos que nunca fui preso ou se meteu com a polícia e agora vou acabar pagando o preço por ser irmão deles.

- Calma que não são bem assim as coisas.

- Você que pensa. Eu sou de Vinhedo e lá para a justiça só existem dois tipos de pessoas na cidade. Os pobres e os ricos e eu por ser pobre, preto e irmão de seis presos não vão dar mole para mim.

- Tenha calma que tudo irá se resolver. Olha! Eu tenho advogado e no máximo até quarta feira estarei na rua e daí, saindo eu te ajudo a sair daqui.

- Jura?

- Pode apostar que sim, pois sei bem o que é ser injustiçado.

- Nem saberei como lhe agradecer por isso.

- Só fica calmo, porque senão acaba se complicando mais ainda aqui dentro.

- Tudo bem. Você já está me ajudando muito e saiba que pode contar com a minha proteção aqui dentro agora. Ninguém vai por as mãos em você. Tem a minha palavra.

 

Eu não estava tentando acalmá-lo por causa disso, mas pareceu-me que Deus o colocara ali para me proteger e olhando através das grades para o céu completamente nublado agradecia a Ele por isso. Sentamos em um canto daquelas camas molhadas e tentamos dormir, mas quando eu estava quase pegando no sono ouvi barulho de sirenes e de vozes exaltadas.

 

- O que será que está acontecendo lá fora? Pensei eu.

 

Não demorou muito e tive minha resposta. Pela grade de divisão da carceragem para o pátio passaram varias pessoas conduzidas por policiais federais. Trouxera diretamente para a cela e que eu estava. Aqueles cinco presos entraram e só disseram boa noite e se calaram e assim permaneceram. O cansaço me vendeu e acabei dormindo.

 

Por mais incrível que pudesse imaginar, naquele lugar onde ninguém fazia nada o dia todo e nem havia opções de trabalho, ou até mesmo de estudo por ser uma cadeia de transição todos acordavam cedo e mal o dia clareou já havia aquele barulhão lá no pátio.

 

Tisiu acordava e fazia questão de acordar todo mundo e eu sabia que ele me ameaçaria assim que me visse, porém, naquele segundo dia ali eu já não o temia, pois acreditava e estava confiando naquele anjo negro e de fato aquele dia não foi um dia normal. Muita coisa aconteceria no decorrer das horas que ainda viriam.

 

Eram sete horas da manhã quando Tisiu trouxe o café, uma quota de leite que mal dava meio copo e um pãozinho amanhecido aparência de ser de dois dias atrás. De repente ele olhou para mim e em seu olhar havia um brilho assassino. Sabia que se eu não tivesse proteção não chegaria até o final do dia vivo.

 

Tomamos café e eu não tinha um pingo de vontade de sair da cela, porém, ficar ali dentro seria ainda mais perigoso, pois as portas ficavam abertas durante o dia, enfim, eu teria que sair, mas desta vez não sai sozinho. Cidão, já mais calmo, saiu junto comigo conversando. Tisiu olhou para ele, depois olhou para mim e passou o dedo pelo pescoço em uma clara ameaça de querer me cortar.

  

Não sei por que, mas aquilo não me pareceu naquele momento tão perigoso. Eu acreditava e confiava demais em Deus e sabia que Ele não me desampararia e para me proteger havia mandado um de seus anjos para tal missão.

 

Era um dia de domingo. Era o meu segundo dia recolhido por trás daquelas grades. Eu estava quebrado pela noite mal dormida. Tinha necessidade de tomar um banho e banho ali só de água gelada, impressionantemente gelada e não tinha jeito. Eu precisava colocar a roupa que usava para secar e para tanto teria que lavá-la e eu não tinha sabão e nem nada.

 

- Quer uma pedra de sabão para lavar estas roupas molhadas? Perguntou o guarda.

- Se o senhor me arrumar eu ficaria muito agradecido. Respondi.

- Um momento que vou pegar.

- Obrigado!

- Olha só gente. O bacana é todo educadinho, mas isso vai acabar quando eu o catar de jeito. Disse Tisiu caçoando de mim. Todos riram.

 

O guarda voltou em pouco tempo e entregou-me um pequeno pedaço de uma pedra de sabão. Já poderia lavar a minha roupa, mas havia dois problemas. Primeiro que para fazer isso eu teria que entrar em uma das celas que era ativada apenas para que os presos tomassem banho e depois é que eu não tinha outra troca de roupa e ou ficaria nu enquanto a minha roupa secasse, ou eu lavaria a minha cueca e a vestiria molhada mesmo enquanto a roupa secasse ao sol que dera a sua cara.

 

Não havia jeito e eu entrei naquela cela imunda a fim de lavar minhas roupas. Olhei para os lados e vi que Tisiu estava lá perto dos presos que haviam chegado de madrugada. Cidão por outro lado estava sentado no fundo do pátio quieto e pensativo.

 

- Seja o que Deus quiser. Tenho que lavar estas roupas senão irei ficar doente. Pensei.

 

Temeroso eu entrei naquela cela e aparentemente Tisiu não me viu entrar. Tirei toda a roupa e lavei minha cueca e mesmo molhada eu a vesti novamente.

 

Comecei a lavar a roupa e de repente barulho na porta da cela. Era Tisiu acompanhado de mais dois presos amigos dele. Tremi. Meu fim finalmente chegara.

 

- Agora é com nóis mano. Vou te furar todo e depois beber seu sangue.

 

Disse isso com tanta frieza que meu corpo gelou junto com suas palavras e mais assustado fiquei quando ele mostrou aquela adaga em uma mão e na outra trazia uma caneca com as quais eles serviam leite para os presos ali.

 

Tisiu se aproximou de mim e mandou que o outro preso me segurasse e se fosse em outra ocasião, em meu mundo, eu teria dado uma surra naqueles dois, mas eu não estava em meu mundo e sim no dele e não via salvação ali. Ele então olhou para a minha cara com ar de deboche e disse...

 

- Hoje é domingo e não costumo matar de domingo e por isso vou deixar você viver mais um dia.

 

Eu não sabia se chorava, não sabia se agradecia a ele, ou se erguia as mãos para o céu e agradecia a Deus, mas o importante era que eu ainda não iria morrer naquele dia, porém, o comparsa dele se aproximou de mim e segurou-me com os braços para trás. Seria fácil me livrar daquele aperto, mas Tisiu não me deu tempo para qualquer reação e aproximando-se me deu dois socos no peito.

 

Saiu logo em seguida e na porta virou-se e disse que me daria mais aquele dia para que eu rezasse, mas no dia seguinte, na segunda, ele me mandaria para o inferno e que tomaria meu sangue, porque o corpo dele pedia por isso.

 

As palavras dele doeram mais em mim do que aqueles dois socos idiotas que para mim pareceu menor que o pouso de uma mosca sobre meu braço. Ele era fraco, mas perigoso e eu tinha que tomar cuidado para não vacilar de novo. Lavei minha roupa e ia saindo da cela quando um daqueles cinco que chegaram de madrugada olhou para mim e disse...

  

- Dá para se notar que este mundo não é o seu e vou te dar um aviso. Cuidado porque neste mundo sujo e podre das prisões, ratos iguais este moleque, que nada tem mais a perder, é que acabam ditando a rotina do dia a dia.

 

Sai da cela com aquelas palavras na cabeça e apenas de cueca fui para o pátio esticar minhas roupas. Depois disso vendo que Cidão permanecia no mesmo lugar de cabeça baixo fui até ele para distrair minha cabeça.

 

- Como você está meu amigo?

-Triste, chateado, bravo, irritado e preocupado.

- Calma! Tudo vai dar certo. Tenha fé em Deus.

- Fé? Estou preso e minha mulher lá fora desamparada e um cara querendo comê-la. Acha que dá para ficar calmo?

- Me diga uma coisa. Por acaso você acha que se ficar triste, chateado, bravo, irritado e preocupado, eles te deixarão ir embora?

- Claro que não. Porque diz isso?

- Digo por que você deve se acalmar. Ficando deste jeito não vai mudar nada e o que vai acontecer é de você ficar ainda mais machucado.

 

As minhas palavras pareceram surtir um efeito momentâneo em Cidão que tentando parar de pensar naquilo tudo começou a conversar comigo um pouco mais solto. Contou-me que eram sete irmãos e que outros todos estavam presos e todos nas penitenciárias de Hortolândia e todos haviam entrado para uma facção que havia sido criada de nome PCC.

 

Eu não entendia nada do mundo do crime e a curiosidade levou-me a querer saber mais daquele mundo de prisão e apesar de Cidão também não ser daquele mundo, possuía em sua família os irmãos que preferiram entrar para o mundo do crime enquanto apenas ele quis trabalhar dignamente.

 

Disse que conhecera Vera a cinco anos atrás e que ela era um pouco mais velha que ele.

 

Disse também que ela era uma moça loira e maravilhosa, que se entregara a um amor de verdade com ele, deixando tudo de lado apenas para ser feliz ao seu lado, mas ele era pobre e preferia isso a entrar para o crime onde o dinheiro poderia vir em abundância, mas o preço para isso seria caro demais para ele e a cada dez palavras que ele falava, cinco era sobre Vera.

 

Querendo mudar os rumos da conversa perguntei sobre seus irmãos e sobre aquilo que ele falara sobre PCC, mas ele sobre este assunto não sabia muito, apenas sabia o que soubera de seus irmãos quando saíam naquelas tais de saidinhas de dias da mães, natal, dia dos pais e por ai afora.

 

Falei para ele que dentro de no máximo três dias estaria na rua e o ajudaria a sair dali e isso lhe encheu de esperanças, pois saindo ele voltaria para casa e teria novamente em seus braços a sua amada esposa Vera.

 

Minha roupa secou, vesti-a e chegou a hora do almoço. Naquele dia serviram macarrão que mais parecia uma gosma de sabe-se lá o que, mas enfim, era o que tinha para se comer. A tarde quando se iam trancar as portas Tisiu se aproximou da porta da cela onde eu estava e disse...

 

- Amanhã será o seu dia. Se prepare.

 

Afastou-se da porta, o carcereiro a trancou e ele foi embora. Cidão olhou para mim e perguntou se aquele moleque estava me incomodando. Respondi que ele apenas não havia gostado de mim.

 

- Aquele moleque é perigoso. Isso está escrito em seus olhos. Tome cuidado com ele, pois parece que ele dita as normas aqui dentro desta cadeia. Se precisar de ajuda pode contar conosco. Disse um daqueles presos recém chegados.

- Ninguém vai mexer com você, porque se fizerem isso, vão ter que se ver comigo antes. Disse Cidão em seguida.

  

Mesmo praticamente dormindo no chão, naquela noite consegui dormir, pois senti que já não estava mais só.

 

Amanheceu. Terceiro dia preso. Era uma segunda feira. Tudo seguiu sua rotina. Primeiro soltaram o Tisiu e este foi pegar o café para servir a todos os presos. Ele começava sempre da última cela para a primeira e já havia quatro celas cheias de presos e todas as que estavam ocupadas ficavam do lado esquerdo de quem entravam no pátio. Eu estava na primeira.

 

Tisiu serviu as demais e veio até onde eu estava trancado. Preferi ficar longe da grade, mas mesmo assim ele me olhou e disse em tom ameaçador...

 

- Rezou bastante? Se não rezou reze, porque hoje eu vou tomar seu sangue depois de te matar.

- Moleque! Antes de pegar ele vai ter que me pegar primeiro. Disse Cidão em tom enérgico.

- Calma ai negão! Não tenho nada contra você. Meu negócio é com o mano aqui.

- Já lhe disse que se mexer mais com ele ai irá se ver comigo.

- Não quero confusão com você negão. Sei bem quem são seus irmãos e já lhe disse que meu negócio é com este branquelo ai.

- Se mexer com qualquer um dos dois não será com os irmãos dele que terá que se preocupar, porque nós mesmos cuidaremos de você, seu pirralho. Disse o que parecia ser o líder daqueles cinco presos.

- Pelo que vejo você arrumou protetores não é, mas tudo bem, eu vou me conter, porém, um dia eu te pego lá fora. Disse isso e se afastou depois de servir o café, leite e o pão.

- Este não vai por mais a cara com você nem aqui e nem lá fora, porque ele sabe que encontrará encrenca se pensar em fazer isso algum dia e eu duvido que ele saia daqui vivo. É idiota demais para ficar vivo muito tempo. Disse outro dos presos.

 

Tisiu saiu e algo chamou a sua atenção e ele voltou os olhos em direção às grades. Ali, no alto da parede, na parte interna das grades havia uma TV e estava ligada no jornal da manhã e Tisiu pediu para que todos olhassem para a tela. Nela a apresentadora transmitia uma matéria sobre uma prisão ocorrida na noite anterior...

 

- A polícia federal em uma operação da inteligência, prendeu na noite de ontem uma quadrilha de traficantes na cidade de Jundiaí e com eles foram apreendidas oitenta quilos de pasta de cocaína.

 

Aquilo era em gênero de apreensão uma grande quantidade, pois a pasta de cocaína era pura e se misturada dariam muitos quilos, mas o que chamava a atenção é que a reportagem mostrava a imagem da quadrilha sendo presa e eram justamente os cinco que chegaram de madrugada na cadeia.

 

Como por um passe de mágica se esqueceram de mim. O assunto agora era sobre a prisão das drogas e dos traficantes e ali estavam eles junto comigo e com Tisiu.

 

Este olhou para mim e depois para eles e se assustou, porque prometeram me proteger e se tem uma coisa que descobri naquele momento é que todo bandido é macho, desde que não surjam na sua frente bandidos mais perigosos que ele e aquela quadrilha não era qualquer coisa, pois foram presos pela polícia federal e não pela civil ou a militar e isso impunha respeito entre eles.

 

A segunda feira transcorreu com o assunto sobre a grande apreensão de drogas através da polícia federal, mas mais ainda por serem aqueles cinco os pivôs da prisão. A corregedoria tinha pressa em tirar aqueles cinco do cadeião e no final da tarde chegou a ordem de transferência deles para o complexo penitenciário de Hortolândia e eram dezoito horas quando um forte esquema de segurança foi montado e eles foram transferidos sob a escolta da federal.

 

Tisiu sentiu-se mais confiante e na hora que foi servir o jantar, naquele dia um pouco mais tarde me deu o aviso...

 

- Seus protetores foram embora. Comece a rezar de novo passarinho.

- Se mexer com ele vai se ver comigo moleque. Eu ainda estou aqui. Disse Cidão energicamente.

- Não se mete não negão! Meu negócio é com ele e não com você.

- Tente ao menos chegar perto dele para ver se não te faço atravessar a parede sem desejar.

- Tudo bem negão. Tudo bem! Mas está se metendo com a pessoa errada.

- Quer por a prova a sua macheza? Respondeu Cidão.

- Deixe quieto. Fica na paz. Disse Tisiu e saiu em direção à sua cela.

 

Ele se foi, mas a preocupação voltou. Cidão não era páreo para Tisiu e os aliados dele, porém o que pesava ai, nesta situação era que ele tinha irmãos ligados diretamente ao crime e pertenciam a recém criada facção do PCC e isso continha um pouco aquele moleque delinqüente.

 

A noite passou e mal consegui dormir. Pelos cálculos do advogado no máximo até no dia seguinte eu estaria na rua e eu contava com aquilo. A rotina voltou e fomos para o pátio. Tisiu não mexeu mais comigo durante toda a manhã, mas logo após o almoço minha aflição cresceu, pois viera a ordem de transferência de Cidão para o complexo penitenciário ainda naquela tarde e a minha para o dia seguinte.

 

Sabendo disso Tisiu se aproximou e todo confiante olhando-me nos olhos disse...

 

- O negão vai embora hoje e amanhã cedo eu te pego. Garanto que não terão gosto de ver como que é a penitenciária por dentro.

- Vamos falar francamente Tisiu. Porque se invocou comigo? Não te fiz nada cara. Respondi procurando tirar coragem de dentro de mim.

- Não tenho nada contra você, mas eu não gosto de burgueses e você é um deles.

- Cara! Eu sou um cara que rala para viver e nem de longe sou um burguesinho.

- Você é estudado e eu não gosto de quem estuda.

- Bela porcaria eu ter estudado. Estou no mesmo lugar e situação que você, ou seja, eu e você estamos presos o que não faz diferença nenhuma.

- É! Pode até ser, mas vou te matar. Disse isso e se afastou.

- O que foi irmão? Perguntou-me Cidão se aproximando.

- As mesmas ameaças.

- Quer que eu dê um jeito nele antes de ir para a penita?

- Não! Você não é assassino. Comporte-se para eu poder lhe ajudar. Amanhã deverei ir para a rua e lá eu te ajudo.

- Tudo bem farei isso, mas se for para a penita lá na P-1 está meu irmão Rubão, na P-2 está meu irmão Carlão, na P-3 está meu irmão Armandão, na P-4 estão meus irmãos Ricardão e Pedrão e na P-5 está meu irmão Clebão. Lá eles são líderes e respeitados. Fale com eles e que é meu amigo que eles te darão apoio.

- Obrigado meu amigo.

 

Mal acabou de me falar isso o carcereiro chamou-o e ele foi embora. Tisiu olhou-me com olhar homicida e em um aviso velado passou o dedo pelo pescoço em um sinal de que iria cortá-lo. Novamente fiquei apavorado e rezei para que eu fosse embora no dia seguinte.

 

A noite passou e eu não consegui dormir. Estava apavorado. Na haveria jeito ou forma de escapar daquele assassino. Eu não tinha para onde correr ou onde me esconder. A policia não iria me proteger, pois para eles éramos todos lixo e escória da sociedade. Só me restava rezar e Tisiu sentiu meu pavor porque ria vendo-me assustado.

 

A manhã passou e ele sequer olhou para mim. Sentia que ele iria aprontar algo e deixara para mais tarde e por outro lado eu contava que meu advogado viesse me tirar dali. A tarde chegou e com ela nada do meu advogado, porém chegou a ordem de transferência minha e de mais dois presos para o Centro de Detenção Provisória e eu não sabia o que era pior, se era as ameaças do Tisiu ou eu ser transferido para o CDP, afinal lá, eu estaria diante de pessoas tão ou mais perigosas que o Tisiu.

 

Eram quinze horas quando o carcereiro me chamou a aos outros dois presos e mando que arrumássemos as coisas, pois iríamos ser transferidos para o CDP. Apressei-me em ficar ao lado das grades, perto do carcereiro e Tisiu só me olhava à distância rindo e foi ali que eu soube e senti que ele não tinha a menor idéia de me matar fisicamente, mas sim queria minar minhas resistências mentais e psicológicas. Odiei-o por isso.

 

 Todos ali do lado do portão gradeado, o mesmo foi aberto e fomos levados para uma caminhoneta fechada onde o calor era insuportável. Entramos e logo em seguida a viatura saiu em direção ao CDP. Dentro dela havia um preso o qual já era veterano no ir e vir. Este nos deu dicas de como deveríamos agir, uma vez que o outro que estava indo era tão novato quanto eu.

 

 

- Ao chegar lá na penita não olhe de forma alguma nos olhos dos guardas. Sempre mantenham as mãos para trás e olhos para baixo. Só responda o que eles perguntarem sempre frise o ¨senhor¨ ao responder.

- Por quê? Perguntou o outro preso.

- Porque lá eles são a lei e adoram bater em presos.

- Mas bater nos outros é um crime. Disse inocentemente.

- Ah ta! Vá dizer isso para eles então. Já lhes dei a dica e nem cobrei por isso.

 

A viatura continuou seu caminho e algum tempo depois chagava ao complexo penitenciário, o qual era composto de cinco unidades e outra de semi-aberto.

 

A viatura parou em uma das unidades e o preso que havia nos falado sobre como proceder dentro da prisão desceu. Eu e o outro permanecemos ali dentro algemados e sentados quietos. De repente ouvimos barulho de pancada e gemidos.

 

- Ai! Ai! Ai! Para senhor.

- Te fiz uma pergunta e não quero conversa mole.

- Desculpe senhor.

 

Ouvimos o barulho de outras pancadas e gemidos.

 

- Vou perguntar de novo seu lixo. É a primeira vez por aqui?

- Não senhor! Já passei por aqui outras vezes.

- Ah! É freguês antigo então?

- Sou sim senhor!

- Foi preso por qual artigo desta vez?

- 157 senhor!

 

- E das outras vezes?

- 155, 157 e 33 senhor.

- Depois quando falamos que temos que matar vocês seus vermes vem uns padres de merda defendê-los. Vocês são a escória e podridão da sociedade e ainda temos que dar-lhes comida e pagar com nosso dinheiro. Vá seu vagabundo. Para dentro.

 

Não entendi nada daquilo de 33, 155 e 157, mas entendi sobre o respeito e a educação com os guardas. Olhei para o outro preso e ele também entendeu bem o recado. A porta foi fechada novamente e a viatura saiu. Fomos levados para a unidade três do complexo.

 

Lá chegando à porta foi aberta e nos mandaram descer. Desci primeiro. Mãos para trás e cabeça baixa. O guarda mandou que parássemos de costas para a parede e assim fizemos. Olhando para mim ele perguntou...

 

- Primeira vez por aqui?

- Sim senhor!

- Já foi preso alguma vez?

- Não senhor! Nunca.

- Foi preso por qual crime?

- Na verdade nem eu sei senhor!

- Hum! Educadinho o preso aqui heim Jairo?

- Muito e na ficha dele diz que tem nível superior.

- Ele foi preso por qual artigo?

- Não vem mencionado aqui. Apenas vem escrito cuidado.

- Porque cuidado?

- Sei lá, mas isso vem do delegado, o doutor Roberto.

- Poderia me dizer por que aqui está escrito cuidado preso?

- Também não sei senhor.

 

- Bem! Deixa para lá e você preso. Já nos visitou alguma vez?

- Não senhor! Nunca.

- Ih! Outro educadinho. Foram presos juntos?

- Não senhor! Respondemos os dois quase que juntos.

- Vamos mandá-los logo para o RO e não vamos perder tempo com eles.

 

Não entendia nada sobre aqueles nomes ou siglas, mas nos levaram para um pequeno pátio e depois nos levaram por uma escada lateral. Subimos e saímos em uma enorme galeria. Havia nela duas passarelas com celas dos dois nomes. No meio delas havia um vão gradeado que deixava ver por ele a parte de baixo que deveriam ser celas também. Ergui disfarçadamente os olhos e havia mais um lance daqueles no andar superior.

 

Fomos conduzidos pelo corredor de celas sob o olhar atento dos demais presos. Abriram uma das celas e ali estavam mais dezoito presos. Era uma cela ampla e possuíam camas de alvenaria dos dois lados. No fundo do lado direito havia um lavatório e um vaso sanitário e no esquerdo um cano por onde saia à água gelada. Também havia um grande espaço gradeado que era a janela daquela cela.

 

- Bem vindos! Nos disseram os demais presos.

- Obrigado! Respondi.

- Se ajeitem em algum canto ai. Aqui somos todos amigos e irmãos.

 

Olhei de um lado e do outro. Todos estavam ajeitados e sentados naquelas camas que possuíam um colchão de espuma e todas estavam com lençóis.

 

- Foram presos por qual artigo? Perguntou um dos presos.

- Eu na verdade nem sei por que fui preso e nem os guardas nos informaram o artigo.

- Mas do que foi acusado? Perguntou outro deles.

- Me acusaram lá no Poupa Tempo de querer tirar documento falso.

- Poupa Tempo de Campinas?

 

- Este mesmo?

- E estava tirando documento falso?

- Não! Claro que não.

- Mais um que caiu no esquema do Estado. Disse um dos presos para os outros.

- Como assim? Esquema do Estado?

- Quotas irmão. Quotas. Já ouviu falar delas?

- Mais ou menos.

- Pois é! Eles tem quotas para prender pessoas e quando não acham apelam para o Poupa Tempo que acaba arrumando alguns para eles.

- Mas isso é errado. É um crime.

- Bem vindo ao time irmão. Somos agora todos criminosos.

 

Não sabia o que falar e de uma coisa eu sabia. Eu agora era um prisioneiro e com um número de matrícula e mesmo sendo inocente, esta matricula iria me perseguir para a vida toda e o pior é que eu não poderia fazer nada para mudar isso.

 

- Por favor. É fácil de falar com o Armandão?

- O negão?

- Deve ser! Conheci o irmão dele lá no cadeião de Campinas e ele pediu para que eu falasse com o irmão dele aqui.

- Nossa! Está bem na fita heim mano. Já chega conhecendo um dos cabeças da cadeia, mas qual dos irmãos dele está solto? Respondeu rindo um dos presos.

- O Cidão!

- O que? O Cidão foi preso por quê? O mano não é do crime.

- Pelo que ele me falou foi por causa de um cara de um bar lá perto da casa dele.

- Puta que pariu! Aquele filho da puta de novo? Eu devia ter dado cabo dele quando ele aprontou pra cima de mim.

- Como? Perguntei curioso.

 

- Tem um cara lá em Vinhedo, que tem uma venda perto dos nossos barracos que é cheio de querer comer a mulher dos outros. Ele já devia ter subido e eu vacilei quando ele mexeu com a minha, mas daí a fazer com que o Cidão fosse preso já é demais. Passou da hora dele subir.

- Subir? Perguntei.

- Você vive em que mundo mano? Subir é igual passar desta vida para a outra. Morrer, ou ser morrido. Entendeu?

- Sim! Entendi. Respondi sem graça, pois todos riram.

- Fica frio. Sabemos que não é do crime. Disse outro dos presos.

- Vamos chamar o Armandão para você. Ei Bidu chame o Armandão para nós.

 

Passaram-se uns vinte minutos e diante da cela onde eu me encontrava apareceu um rapaz negro muito forte. Na verdade ele era até mais forte que seu irmão, porém duas coisas os diferenciavam. Uma era que ele era bem mais baixo que Cidão e a outra era a sua voz que era fina.

 

- Você que é amigo do meu irmão? Ele me perguntou.

- Sim! Como sabe?

- Aqui na cadeia não há segredos. Avisaram a ele que você veio para cá e ele me mandou uma pipa.

- Nossa! Tão rápido assim?

- Se tem uma coisa que funciona aqui são as nossas mensagens irmão. Precisa de algo?

- Pelo que meu advogado falou devo receber a liberdade ainda hoje, mas se não receber acho que vou precisar sim.

- Vamos torcer para que vá embora, mas se não for e precisar de algo é só me chamar. Você tem cobertor, escova de dentes, sabonete, lençol?

- Não tenho nada. Estou do jeito que vim da rua.

- Vou lhe trazer uma bermuda e uma camiseta assim você pode lavar a roupa que está usando.

- Obrigado! Nem sei como agradecer.

 

- Nem precisa! Amigo de meu irmão, meu amigo é.

- Esta bem na fita mesmo heim mano. Já chegou chagando e deve ser mesmo amigo do Cidão, porque o Armandão não é de ser calmo e bonzinho assim.

- Conheci o Cidão lá no cadeião e fizemos amizade por lá.

- Parabéns! Hoje eu vi que o Armandão tem coração ainda.

- Por quê? Ele não é assim?

- O Armandão ser desta forma que foi com você? Nunca. Ele é seco e mal humorado.

- Dei sorte então?

- Sorte sim, mas não abusa dela se for ficar por aqui, pois aqui ninguém é amigo de ninguém a não ser na dor e no sofrimento. Disse outro preso que estava a um canto.

- Se ajeita ai que vão servir a comida daqui a pouco.

 

Sentei-me em um dos cantos daquelas camas e logo depois Armandão mandou que entregassem algumas coisas. Uma escova e um tubo de pasta de dentes, uma toalha, um lençol e um sabonete. Quanto ao cobertor Armandão disse que iria pedir para os guardas e mais tarde me mandaria pelas pipas.

 

Fiquei surpreso. Não esperava por aquilo tudo e nem esperava ficar ali até o dia seguinte, mas a comida foi servida e nada da minha liberdade. Fiquei desapontado, mas nada pude fazer. Era um preso. Um recluso e só me restava esperar.

 

Jantamos. Depois limparam a cela e foi escalado um dos que ali estavam para ficar na responsabilidade das pipas de noite. Estava curioso para saber como é que aquilo funcionava e um dos presos, que já era veterano ali perguntou se eu queria ver como funcionava aquilo.

 

- Sim! Respondi.

- Daqui a pouco, depois da contagem começa o corre-corre por aqui e as pipas são uma das maiores responsabilidades daqui. Pisar na bola com isso pode significar encrenca para quem estiver na responsa. Entendeu?

- Sim! Entendi.

 

Não demorou muito e um dos guardas passou fazendo a contagem. Foi-se embora e com ele a minha esperança de ir embora naquele dia. O advogado me prometera que eu iria embora até na quarta e nada e ai foi que me lembrei do carcereiro me falando que aquele advogado era um lixo. Não havia alternativa a não ser esperar o dia seguinte.

 

Meia hora depois que o guarda fizera a contagem começou o corre-corre das coisas por ali. O sistema do correio interno deles era feito através de cordinhas que vinha de outras celas e aram passadas de cela por cela até o seu destino.

 

Como estávamos em um longo corredor em três andares as coisas daquele lado do andar era simples. Passava-se por um tipo de carretilha jogada de uma cela para a outra do mesmo lado e para atingir o outro lado dos corredores e por cima do vão que dava visão para o andar de baixo simplesmente se era jogado uma sandália amarrada em uma cordinha de um lado para o outro.

 

Era impressionante o movimento frenético daquelas cordinhas e o mais engraçado era que um guarda ficava sentado bem no meio daquele extenso corredor sem nada falar ou fazer. Apenas ficava encostado no apoio da cadeira e com a cabeça apoiada na parede.

 

- Ele não fala nada?

- Quem? Perguntou o preso escalado para aquela noite.

- O guarda? Eles ficam ali e não falam nada?

- Não e às vezes até ajudam quando algo enrosca.

- Está de gozação comigo?

- Não! Eles não se metem a não ser que achem que tem drogas correndo pela cadeia.

- Ah! Entendi. Então não passam drogas pelas cordinhas?

- Quem falou para você que não? Respondeu sorrindo o preso.

 

Nem quis comentar e de repente o preso me disse...

  

- Pipa para você.

- Para mim?

- Sim! Está famoso aqui heim?

 

Não respondi e como estava curioso fui abrir. Era do Cidão.

 

- Salve! Salve mano. Já soube que está por aqui e já avisei meu irmão e espero que ele tenha ido falar com você. Se precisar de algo é só pedir para ele ou para mim. Estou na cela 141, da penita 1. Forte abraço.

 

Fiquei impressionado ainda mais. Como é que podia vir mensagens de outra unidade até ali. Perguntei para o preso ao meu lado e sorrindo ele não quis falar nada, mas isso só poderia acontecer com a ajuda dos guardas, mas preferi me calar. Boca fechada faz bem para a saúde de qualquer um, ainda mais em cadeia e adotei esta regra para mim.

 

Fiquei até tarde vendo ali toda aquela correria e fui dormir era tarde da noite. Acabaram me dando uma burra (cama) para dormir e deitei-me pensando que iria embora naquele dia, quinta feira, sendo que já era o sexto dia em que eu me encontrava preso.

 

O dia amanheceu e o sol bateu por aquela janela de grades. A maioria dos outros presos já haviam se levantado e tomado banho e esta foi outra coisa que eu aprendi ali. Quem dormia no chão, que eles chamavam de praia eram os primeiros a acordar e retirar tudo do meio do chão, pois quando o café chegava e ele chegava logo em torno das sete da manhã, nada podia atrapalhar a passagem das pessoas ali dentro.

 

Outra coisa que eu soube era que o RO era o nome do Recolhimento Obrigatório para presos que estavam na fase de ir para a rua, transferência ou para se juntar à população.

 

Levantei-me ansioso na esperança que viessem logo com o meu alvará de soltura. Tomei um banho naquela água gelada, porém pareceu-me no momento a melhor água do mundo. Logo depois chegou o café e era bem melhor que a do cadeião e isso se devia a que ali dentro, os irmão tinham força contra a policia.

 

Terminamos de tomar café e não havia nada a se fazer a não ser ficar ali jogando conversa fora e resolvi saber por que cada um deles estava ali preso, pois pela minha cabeça passou a idéia de ajudá-los se me fosse possível quando eu saísse dali, porém mesmo pensando em fazer isso nada disse a eles a fim de não lhes causar ansiedade, pois caso prometesse e nada fizesse ai sim eu teria alguns inimigos desnecessários contra mim.

 

 

- Está gostando da história?

 

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